Importância da ciência em momentos de crise: Diretor-Presidente Rodrigo Gava

Publicado por Daniel Silva em

Responder qual a importância da ciência para a sociedade, e principalmente neste momento de crise, exige um grande esforço, e é preciso fazer escolhas para não correr o risco de ir muito além do necessário para cumprir com os interesses condizentes esta comunicação. Digo isso porque muitas são as influências que percorrem o fazer científico desde sua feição moderna, ainda no contexto de transição entre a idade média e o renascimento. Portanto, o peso da história seria fundamental postular, mas pretendo me ater a elementos que julgo suficientes à compreensão de seu papel numa sociedade em permanente transformação.

De forma geral, a ciência se tornou um dos, senão o mais, importantes canais de nosso conhecimento. Não cobre todas nossas angústias, pois ela tem dificuldade em lidar com as questões fundamentais da existência, muitas vezes suprida pelo pensamento teológico, filosófico e até mitológico, mas também não se manifesta da mesma forma na geração de todo conhecimento que gera. Isso, porque são significativas as diferenças entre os objetos tratados pelos cientistas dependendo do ramo científico a que se dedicam, bastando comparar as diferenças entre as ciências naturais e as sociais, por exemplo.

Enquanto a primeira define objetos entendidos como reais, cujo conhecimento é mais facilmente compreendido universalmente, a segunda, questiona a própria percepção das realidades a serem estudadas, dadas as diferentes percepções de mundo que cada um de nós tem. Assim, como a própria organização dos diferentes quadros de referência teórica que podem ser usados para suas observações, hipotetizações, operacionalizações e análises, decorrem significativas diferenças em todo trato para a objetivação da realidade.

Importância da ciência

Mas forçando uma só nota, a ciência pode ser apontada como um canal fundamental de conhecimento da humanidade. Ela provém um contínuo movimento de geração de novos conhecimentos, sucedido por um insistente exercício de autoconfirmação dos conhecimentos por ela mesmo gerados. Com o passar dos anos, e as mudanças intrínsecas que vêm com eles, fica a dúvida se o conhecimento ainda é válido, quando novos
equipamentos e insumos se modernizam, trazendo nova precisão e alcance de análise.

Ao gerar conhecimento novo, a ciência impacta o processo de educação em variados níveis, permiti percebermos e questionarmos o que conhecemos e, especialmente, ver o que não víamos antes. Isso promove uma relação reflexiva de notória contribuição para o incremento de nossa capacidade de lidar com a própria vida. A ciência, pelos princípios de ampla exposição de seus passos e tomada pelo ônus da prova para afirmar suas conclusões, também é fértil em nos prover respostas aos problemas que enfrentamos, possibilitando a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Política e comunidade científica

Ela é um âmbito onde, também, se situam diversas inovações tecnológicas que sucessivamente alteram nossa rotina de vida profissional e pessoal. É um norte seguro para ajudar a responder as perguntas que fazemos e iluminar períodos e espaços obscuros – como o que passamos atualmente. E considerando os impactos que promovem, deve ser um destino prioritário e permanente dos investimentos executados pelo Estado, buscando equilibrar o destino das soluções que gera, considerando a melhoria de vida para os cidadãos, ou seja, para além da preocupação em atender demandas de clientes. É fundamental manter serena atenção para se evitar a desconexão entre políticos e a comunidade científica, assegurar recursos para a formação e qualificação de pesquisadores e para fomentar a pesquisa, assim como para assegurar infraestrutura científico-educacional de alto desempenho.

Em meio a interesses políticos, muitas vezes obtusos e questionáveis, e respectivas rivalidades de pensamentos e ideologias, a ciência costuma nos prover soluções sobre como agir, sobre leitura de cenários, sobre como desviar de rotas cujos destinos levam a consequências ameaçadoras à vida e sobre como gerar soluções de curas, como no caso que nos ocupa no momento. Se afastando de critérios opinativos e julgamentos de valor nem sempre precisos quanto seria necessário, a ciência, quando se manifesta, entrega sugestões comprovadas como eficazes sob determinadas condições, que amplia nossas capacidades de lidar com os problemas que nos acometem. Com isso, se somam as recomendações de profilaxias, as vacinas, os medicamentos e os tratamentos.

Por fim, ao vermos o quanto nossas vidas são, para o bem ou para o mal, afetadas por inovações na ciência, nos cabe permanecer alertas para questões sociais mais amplas, sobre como a ciência e a tecnologia se relacionam com a vida cultural e industrial da nação. Também para isso, farão mais os que mais conhecimento têm; de novo, a ciência.

O nosso papel como comunidade acadêmica/científica

Felizmente as universidades vêm tornando o dia a dia pleno em exemplos, o que facilitará minha resposta a esta pergunta. A própria universidade a quem a Funarbe gera seu apoio primordial, a UFV, vem agindo desde que foi instaurado o regime de quarentena, quando fizeram muitas reuniões. Em várias delas, pudemos apoiar para que fossem viabilizadas.

A comunidade científica, no geral, mas também a ufeviana, especificamente, prontamente alteraram rotinas para agir no apoio ao combate à pandemia. Laboratórios foram viabilizados para testes de identificação da Covid-19 no âmbito do sistema de saúde público, por meio da Fundação Ezequiel Dias (FUNED), álcool 70% foi produzido e distribuído a profissionais de saúde do município, uma unidade de triagem foi montada no campus em parceria com a Prefeitura, algumas disciplinas da pós-graduação de alguns programas foram retomadas pelos professores com o uso de plataformas virtuais, assim como a retomada de disciplinas na graduação na modalidade “Disciplina de Outono”, dentre outras ações para que, mesmo em momento anormal, pudéssemos agir tanto em ações de combate direto à Covid-19, como também tentar resgatar um Novo Normal que não interrompesse por completo as atividades acadêmicas. 

Em momentos como este, nos resta, além de buscar soluções com o conhecimento e a prática científica, agir, primordialmente, em benefício da contenção da contaminação, num movimento um a um, buscando o máximo de reclusão, evitando o contato social, respeitando os protocolos amplamente disseminados para se evitar, combater e contornar problemas de contaminação. Tomados pela proximidade ao saber científico, temos a obrigação de nos orientarmos por eles e ajudar a disseminar passos seguros de prevenção e controle da pandemia. O conhecimento pode não só ajudar no combate ao perigo mais claro, o Novo Coronavírus, mas também evitar o retrocesso e a esquiva aos ensinamentos da história. 

Apesar das privações e experiência nova de reclusão para a maioria, também temos possibilidade de usufruir dos inúmeros conteúdos que vêm sendo disponibilizados na internet. São livros, cursos, salas de reuniões, visitas virtuais a museus e incontáveis conteúdos, científicos ou não, que também podem fazer desta experiência tão exigente de paciência, um momento de reflexão e de oportunidades de crescimento.

Perspectivas para a ciência pós pandemia

Em si, a ciência é caminho sem volta. Pode alterar rotas e rotinas, mas os alcances já conquistados e o quanto se tornou integrada à vida social, econômica e política, dão a ela uma condição de inquestionável importância. Sua relação se tornou intensamente imbricada aos interesses da indústria e da economia.

Já sentimos nítida redução da disponibilidade de recursos para a ciência antes mesmo da pandemia, que parece demonstrar um afastamento à importância do que podem fazer os cientistas nas instituições científicas e
tecnológicas públicas do país, espaço praticamente único da construção do conhecimento científico de alto desempenho e também notável centro de formação de futuros pesquisadores, profissionais e cidadãos. Adicionando
a crise que se desenha, podemos experimentar perdas difíceis de calcular, tendo em vista que boa parte do conhecimento em construção se dá no tempo, anos, décadas; até amadurecer e entregar suas soluções.

Trata-se de uma continuidade tomada como política de Estado por alguns países, também periféricos como o Brasil. Mas que no tempo, souberam alinhar política e ciência de tal forma que hoje lideram inovações tecnológica e dinâmica industrial suficientes para encontrar políticas econômicas e sociais condizentes com uma nova posição internacional. Portanto, chances de retomada serão possíveis, embora dependentes da sábia hierarquização de prioridades.

Se da relação entre política e ciência surgem boa parte dos avanços tecnológicos e do conforto com tarefas antes de hercúleo trato, a atenção com a mesma se torna importante em igual proporção. Tendo em vista que mesmo vivendo num mundo ávido em determinadas soluções, também mantemos um ritmo de história lenta em outras, com milhares de pessoas morrendo de fome, crianças desnutridas pela miséria. Tudo isso, em meio a recordes de produção de alimentos e crescente concentração de renda, mantendo nossa dualidade sempre em primeiro plano.

Me despeço recuperando comentários anteriores, pois se ciência e política foram tão imensamente conectadas a partir do início do Séc. XIX, é a esta mescla que devemos voltar nossa atenção para que a prática científica nos entregue o que tem de melhor, soluções para um futuro melhor.

diretor presidente funarbe Rodrigo Gava

                                                                                    

                                                                                    

Diretor Presidente Rodrigo Gava


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