Centenário na literatura brasileira: por que ler João Cabral e Clarice Lispector?

Publicado por Daniel Silva em

Escrito por: Joelma Santana Siqueira, Doutora em literatura brasileira pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e Professora de Literatura Brasileira vinculada ao Departamento de Letras UFV.


Em 2020, comemoramos o centenário dos escritores João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Há muitos eventos e lançamentos acontecendo para festejar essa data importante para a cultura brasileira.

Por que ler Cabral?

Funarbe João Cabral de Melo Neto
João Cabral de Melo Neto, nascido em 9 de janeiro de 1920 Recife, PE.

O poeta João Cabral de Melo Neto, autor de várias obras, entre as quais o livro de poesia O engenheiro (1945), recebeu alguns epítetos relacionados à noção de rigor formal, cálculo, construtivismo, identificados em sua poesia. Para muitos críticos, ele é “poeta engenheiro”, “poeta arquiteto”, “poeta geômetra”. Frequentemente, o poeta falou de sua preocupação com os aspectos construtivos de seus poemas, dizendo-se admirador da poesia concreta.

Se, em sua obra, podemos identificar o rigor formal, a busca por uma poesia que evita a emoção fácil, reforçada pelo próprio João Cabral, não podemos deixar de observar que ele foi um poeta que não se acomodou em uma solução, esteve sempre à procura do poema, mesmo porque entendia que a poesia era resultado de trabalho e não apenas de inspiração.

Em 1952, no contexto da guerra-fria, João Cabral, que também era diplomata, trabalhava no Consulado Geral em Londres e foi removido para o Brasil para responder a inquérito por ter sido acusado de exercer atividade subversiva. Posteriormente, o inquérito foi arquivado por falta de provas.

Em artigo que escrevemos para a Revista Texto Poético, tratando sobre a presença de João Cabral na imprensa durante a década de 1950, observamos que, se não é possível falar em militância política na trajetória do homem João Cabral, na década de 1950, “podemos falar em militância literária no sentido de ter contribuído para a defesa do diálogo da literatura com os problemas que assolavam os homens” (SIQUEIRA, 2018, p.425.). Foi nessa década que o poeta passou a escrever, de modo mais enfático, uma poesia que aborda assuntos que afligem os homens, sobretudo, a miséria que assola o homem pernambucano. A primeira obra em que esse aspecto ficou mais evidente, O cão sem plumas (1950), publicada enquanto ele trabalhava como vice cônsul em Barcelona, constitui, ao lado das obras O Rio (1954) e Morte e vida severina (1956), o tríptico do rio Capibaribe porque, nelas, homem e rio são postos lado a lado, seja viajando juntos rumo ao litoral, seja na cidade litorânea do Recife. Vejamos uma passagem de O cão sem plumas em que podemos observar essa relação entre rio, homem e cidade:

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso
Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casa de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.
Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

(MELO NETO, 2003, p.108).

Essa passagem do poema nos permite lembrar de outro aspecto importante da poesia cabralina, sua linguagem crítica (da poesia e da realidade). Lendo seus versos, somos convocados a pensar na linguagem e, a partir dela, na realidade que o poema nos mostra. A primeira realidade que salta aos olhos é a da própria linguagem poética e sua força para nós fazer pensar no que o poema diz, nesse caso, diz de homens que foram roídos até no que não tinham, comparando-os a “cães sem plumas”.

A palavra “plumas”, em lugar da previsível palavra ‘’pelo”, põe em prática o que o poema diz sobre algo que é roído tão fundo que lhe tiram até o que não tem. Essa coisa que lhe tiram, mais do que o essencial, que seria seu pelo, é o que fica reverberando na leitura, sem que a gente esgote o seu sentido. Arrisco dizer que essas plumas podem ser as possibilidades de futuro desse rio e desses homens roídos que o poeta nos dá perceber.

Cabral disse que queria ter se tornado crítico literário e que não gostava de poesia até ter contato com obras de determinados poetas modernos. Dizia que gostava mais de ler do que de escrever. Não ficou na sombra dos poetas modernos que admirava. Criou sua dicção poética, sem que possamos dizer que achou uma “maneira de” que pudesse satisfazê-lo, pois constantemente criticou sua poesia, achando que não mais escreveria.

Muitos de seus poemas dialogam com a pintura moderna. Ele é autor de um importante ensaio sobre a pintura de Joan Miró. Há muitos estudos que abordam a aproximação de sua poesia com a pintura e há muitos poemas de Cabral que fazem referências críticas a outros artistas, poetas e pintores de sua admiração.

Por que ler Cabral? Porque quando lemos seus poemas, somos convocados a pensar na linguagem poética e seu poder de dizer sobre o mundo coisas que não conseguimos ou não queremos enxergar.

Aproveito para indicar a leitura da obra do escritor e informar que em breve deve sair um novo volume de sua obra completa. Indico também o documentário “Recife de dentro pra fora”, de Kátia Mesel, baseado no poema O Cão sem plumas e com belíssima trilha sonora de Geraldo Azevedo. Esse documentário se inicia com o poeta falando sobre o Rio Capibaribe e diz: “A imagem é tanto mais forte, quando mais diferentes são as realidades que as aproximam”.

Por que ler Clarice Lispector?

Funarbe Clarice Lispector
Clarice Lispector, nascida em 10 de dezembro de 1920 Chechelnyk, Oblast de Vinnitsa República Popular da Ucrânia.

A escritora Clarice Lispector começou a escrever ainda na infância. Ela contou algumas vezes que enviava seus textos para a seção infantil do Diário de Pernambuco, mas não eram publicados. Descobriu que era porque ela não narrava acontecimentos, suas histórias não estavam centradas nas ações das personagens. Quem é leitor de sua obra sabe que seus romances não seguem a estrutura dos romances tradicionais, com início, meio e fim organizados segundo uma sequência causal, do tipo isso aconteceu por causa daquilo. Pelo contrário, em suas narrativas, põe em questão a possibilidade de a linguagem substituir o pensamento e o que foi vivido, experimentado. A protagonista de seu primeiro romance, Perto do coração selvagem (1943), em determinado instante da narrativa pensa:

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, seio-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que digo”.

(Perto do coração selvagem, 1997, p.28-9).

No pequeno texto que publicou na segunda parte da obra A legião estrangeira (1964), com o título “Era uma vez”, comentou sobre o envio de histórias para a seção infantil do jornal:

Respondi que eu gostaria mesmo era de poder um dia afinal escrever uma história que começasse assim: ‘era uma vez…’. Para crianças? Perguntaram. Não, para adultos mesmo, respondi já distraída, ocupada em me lembrar de minhas primeiras histórias aos sete anos, todas começando com “era uma vez”; eu as enviava para a página infantil das quintas-feiras do jornal de Recife, e nenhuma, mas nenhuma, foi jamais publicada. E era fácil de ver por quê. Nenhuma contava propriamente uma história com os fatos necessários a uma história. Eu lia as que eles publicavam, e todas relatavam um acontecimento. Mas se eles eram teimosos, eu também. Mas desde então eu havia mudado tanto, quem sabe eu agora já estava pronta pra o verdadeiro ‘era uma vez’. Perguntei-me em seguida: e por que não começo? Agora mesmo? Seria simples, senti eu. E comecei. Ao ter escrito a primeira frase, vi imediatamente que ainda me era impossível. Eu havia escrito:

‘Era uma vez um pássaro, meu Deus’.

(LISPECTOR, 1964, p.140).

Esse “Meu Deus” expressa o espanto da escritora diante da realidade, e sua
escritura irá buscar se aproximar desse mistério. O romance Perto do coração selvagem, na primeira parte, alterna capítulo do passado e do presente da protagonista Joana, capítulo de Joana criança com capítulo de Joana adulta. Na segunda parte, a narrativa concentra-se em momentos da vida de Joana adulta que continuam dialogando com a primeira parte porque Joana, muitas vezes, confunde-se com a narradora e podemos pensar que a narrativa é resultado dos pensamentos de Joana, de suas lembranças, principalmente, de coisas que ela escutou. Esse aspecto foi estudado em sua obra e na de outros escritores da literatura brasileira a partir do entendimento de que são escritores que escrevem de ouvido (tema de pesquisa de Marília Librandi Rocha, professora da Universidade de Stanford).

Lispector escreveu vários romances, crônicas, contos, reflexões, pensamentos. Um de seus textos mais instigantes intitula-se “O ovo e a galinha”, lido pela escritora durante o Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, ocorrido em Bogotá, em 1975, para o qual foi convidada. Sua fala inicia-se do seguinte modo: “Este texto é misterioso até para mim mesma e tem uma simbologia secreta”. O texto “O ovo e a galinha” é repleto de reflexões e, como outros textos da escritora, põe em questão a linguagem que nomeia as coisas, substituindo-as. Importante observar que a palavra “ovo”, presente em outros textos de sua autoria, é principalmente, palavra a ser reinventada na escrita, dai, nos dizer: “Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe” (LISPECTOR, 1964, p.55).

Pode parecer que estamos falando de uma escritura hermética, enigmática, como algumas pessoas supõem, mas é importante destacar que, como dissemos em relação à poesia de Cabral, na narrativa de Lispector também somos convocados a pensar a linguagem. Os dois escritores foram amigos e, em correspondência enviada de Barcelona para Lispector em 15 de fevereiro de 1949, Cabral escreveu: “v. sabe perfeitamente que escreve a única prosa de autor brasileiro atual que eu gostaria de escrever” (MELO NETO apud SUSSEKIND, p.248).

Não obedecendo ao romance realista tradicional, sua obra tem sido analisada por importantes estudiosos que a aproximam da filosofia, da psicanálise, das outras artes etc. Como João Cabral, Lispector também buscou o diálogo com as artes plásticas, por exemplo, no romance A paixão segundo G.H (1964), temos uma protagonista escultora, e na obra Água viva (1973), uma pintora.

Tonar visível por meio da palavra poética o que foi experimentado é um aspecto relevante de seus textos. Como exemplo, destaco mais uma passagem de Perto do coração selvagem. Depois de casada com Otávio, Joana reclama de estar voluntariamente tão presa a ele, mas isso é dito de um modo que não conseguimos repetir a não ser que voltemos ao texto:

Antes dele estava sempre de mãos estendidas e quanto oh quanto não recebia de surpresa! De violenta surpresa, como um raio de doce surpresa! De violenta surpresa, como uma chuva de pequenas luzes… Agora tinha todo o seu tempo entregue a ele e os minutos que eram seus ela os sentia concedidos, partidos em pequenos cubos de gelo que devia engolir rapidamente, antes que derretessem.

(LISPECTOR, 1997, p.123).

Sua obra aborda as relações sociais de um plano mais íntimo porque focaliza não apenas os acontecimentos, mas o que os envolve quando são vividos. Perguntada uma vez se escrevia para fora, respondeu:

– Se você acha, significaria que olho de fora para dentro? O que significaria que estou, como é a realidade, dos dois lados. É que o mundo de fora também tem o seu dentro, daí a pergunta, daí os equívocos. O mundo de fora também é intimo. Quem o trata com cerimônia e não o mistura a si mesmo, não vive, e é quem realmente o considera estranho e de fora. A palavra dicotomia é uma das mais secas do dicionário.

(LISPECTOR, apud ROCHA, 2011).

Esse ano estão previstos vários relançamentos de obras da escritora. Destaco a publicação recente de sua correspondência com o título Todas as cartas, que traz, finalmente, cartas que Lispector enviou ou amigo João Cabral de Melo Neto.

Por que ler Clarice Lispector? Porque quando lemos seus textos também somos convocados a pensar na linguagem e seu poder de dizer com força poética o mundo interior e exterior que não queremos, não conseguimos ou evitamos enxergar.


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